sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

FRANCISCO, O CHICO!

Marinalva era chamada de Mari. Já tinha passado dos 30. Solteira mas com muitas convicções e certezas. Só uma dúvida: como chamaria seu bebê, que ainda carregava na barriga. Era menino e aos nove meses, bem acolhido no útero da mãe, já pesava mais de três quilos. Cinquenta e dois centímetros e muito saudável, segundo os médicos. Em casa, o quarto do futuro hóspede estava pronto. Paredes brancas, berço cor de madeira, móveis azul claro, cortinas azul escuro. Tom sobre tom. Nada saiu além ou aquém do que ela havia planejado. Sozinha, apenas com o apoio da mãe, que nunca havia lhe apresentado o pai, Mari se considerava uma mulher completa. Família de classe média, ou menos!
Sentiu dores. Era hora de ver seu filho pela primeira vez. Tudo correu bem durante o parto normal. Depois do primeiro choro, ela pôde olhar bem dentro dos olhos de seu pequeno, que acabara de ser apresentado a ela. Criança linda, olhos azuis, pele clara, sem cabelos. Aliás, uma cabeça bem grande.
_Forte como um touro! Gritou sorridente o médico. O parto havia custado a Mari o equivalente a muitos meses de trabalho. Valia a pena, era o primeiro e seria o único filho. O recém nascido foi envolto em uma manta amarela e levado para um leito na maternidade. A mãe descansou.
Antes de abrir os olhos, Mari sentiu um forte cheiro de flores.
_Estou sonhando! Pensou ela. Mas eram flores de verdade. Os amigos agraciaram a nova mãe com lindas flores do campo, rosas e a preferida dela, margaridas. Esta última sua mãe que enviou, pedindo desculpas por não estar junto com a filha naquela hora. Tinha ido visitar um irmão e não contava que não encontraria passagem no único ônibus de volta. Foi um imprevisto que logo seria contornado.
_Posso ver meu filho? Perguntou ela ansiosa, assim que a enfermeira entrou para lhe trazer água.
_Claro, em dez minutos.
A enfermeira se chamava Odete, pelo menos era o que dizia seu crachá amarelado e torto, do lado esquerdo do jaleco, não menos encardido. Uma senhora que aparentava ter 45 anos. Gorda e com poucos fios no bigode, era notável que algum dia ela havia tirado aqueles pêlos, mas desistiu de continuar.
Dez minutos se passaram, uma hora, duas. Mari levantou. Sua mãe, uma médica e várias enfermeiras estavam discutindo no corredor. A mãe de Mari chorava. Quando viu a filha na porta do quarto, correu ao seu encontro.
_Levaram o menino!
_Que menino?
_Meu neto! Seu filho!
Mari desmaiou.
Foram as piores horas seguintes de sua vida. Os olhos de Mari ardiam, com lágrimas que não conseguiam sair. Nem uma gota. Ficavam apenas inchados.
Foram horas, dias de procura, explicações, falta de explicações e muita dor.
_Meu menino não!! Dizia a mais nova mãe sem filho, balançando um garfo ainda limpo sobre o prato.
_Come minha filha, os médicos disseram que assim que tiverem notícias vão ligar e o delegado falou que está perto de descobrir o que aconteceu, come!!
_Meu filho não mãe, meu filho não!
Esta frase foi repetida muitas e muitas vezes durante quase três anos. Nenhuma notícia, nenhuma pista, nenhuma criança.
_Vou acabar com isso! Pensou a mãe de Mari.
Oito e quarenta e um da manhã de sábado. Mari acorda com risadas curtas de criança. Desce as escadas do segundo andar de casa e não vê nada nos corredores, na sala...estavam na cozinha. Estavam!!
A mãe de Mari dava maçã e mamão amassado a uma pequena criança. Era um menino, aparentemente um ano e meio, talvez dois. Cabelos lisos e muito ralos, castanho escuro, olhos grandes. Magrinho demais, visivelmente por falta de comida. Criança sorridente, mas de poucos movimentos.
_Quem é ele? Perguntou parada na porta da cozinha, assustada e com os lábios apertados revelando tensão.
_Agora é nosso. Meu neto, seu filho! Mari deu as costas e subiu as escadas em direção ao quarto. A mãe foi atrás.
_Mari, ele foi abandonado e mora no Dom Raimundo, junto com dezenas de crianças doentes, sem família. Ele chora lá e você aqui. Um precisa de mãe e o outro de filho. Nem uma lágrima Mari, nem uma lágrima em quase três anos! Chore pelo amor de Deus! Se não mais por tristeza, chore de emoção pelo menos. Há quase três anos você não abraça uma criança, sequer fala direito comigo! Não faça isso conosco. Busquei o mais parecido com “ele” possível. O menino está lá em baixo, puro, inocente, vítima da mesma falta de sorte que nós, senão pior! Dê uma chance a ele de ter uma possibilidade de futuro....se dê a chance de dar ao filho de outro o que não pôde dar ao seu e reze para que alguém faça o mesmo por seu filho!!
A mãe desceu. Mari ficou.
_Francisco!!!!!! Disse secamente Mari na porta do banheiro, enquanto a mais nova avó dava banho no corpo magricela do menino.
_Boa escolha filha, boa escolha. Agora termine de dar banho no “Chico” que vou lá separar as roupinhas que comprei.
_Mãe, pelo amor de Deus, Já?!!Chico não, Francisco!!!
_Até mais “Chico”!!! E saiu rapidamente em direção ao quarto que há três anos tinha cortinas azuis e um berço. Hoje, cortinas verdes e uma cama de solteiro. O que rapidamente foi mudado e ficou a cara do “Chico”
Era domingo e visivelmente tinha criança morando na casa. Um carinho com motor já ocupava o corredor da sala. Capas de DVDs do pica pau já faziam enfeite na mobília que comportava a televisão. Restos de bolacha já estavam espalhos pelo chão. Francisco ainda não conhecia bem o lugar;
_Olá Marinalva!! Cumprimentava dona Cândida junto com outra senhora comprida, ao passar por Mari, de mãos dadas com Francisco, andando pela rua. Ele só caminhou em linha reta e mostrando alguma coordenação já com quase quatro anos, pelo menos foi a conta feita desde sua adoção. Mas ainda era magrinho. Custava ganhar peso e tinha uma cor amarelada. Mas o médico do posto de saúde disse que estava tudo bem. O menino precisava apenas de ferro pois era um sério candidato a uma anemia ou coisa parecida. Não precisa dizer que Francisco comia feijão em quase todas as refeições.
_Credo, mas que menino feio! Já que ela adotou podia ter escolhido um mais bonitinho, pelo menos mais gordinho!
_Ai Cândida, deixa ela. Disse a comprida. _ Nem foi Mari quem escolheu, foi a mãe. Fiquei sabendo que ela foi no “Imundinho”(apelido da casa lar onde garotos são deixados) pegar o guri. E você sabe que pra lá só vão as piores espécies, pais que não querem mais seus filhos e justamente porque são doentes! De um lugar cheio de sujeira o que achas que vai sair? Uma criança gordinha e rosada?
Seguiram as duas senhoras, com meio palmo de língua afiada, por um lado, Mari e Francisco por outro. Mãe e filho não ouviram nada.
_Francisco! Pára de mexer nesse controle! Gritava docemente Mari lá de dentro da cozinha para o garoto, lá na sala, brincando com a televisão. Chico parou. Mas parou por muito tempo. Mari entra na sala e vê seu filho deitadinho de lado no chão, imóvel, olhos fixos em direção a televisão e o controle remoto na mão.
_Francisco! Chamou ela. Francisco não respondeu.

_É grave! Afirmou o médico, dentro do consultório apertado, intercalando o olhar entre Mari e a mãe.
_Precisamos começar o tratamento e fazer um transplante. Francisco é uma criança sensível, fraco demais....
_Doutor! Interrompeu a avó._Francisco foi adotado. Ele foi mal tratado quando bebê e abandonado muito cedo. Quase não se alimentava e só Deus sabe o que comia quando tinha oportunidade! Quando levamos o menino pra nossa casa, há quase um ano, ele já estava debilitado. A coordenadora do orfanato me disse que na época ele devia ter entre um ano e meio e dois, deve ter sido abandonada porque já estava doente, mas os médicos disseram que havia melhorado, pobre criança!!
_Fica difícil saber mesmo a idade dele nessa situação, mas podemos ter uma idéia sim. Ele é fraco, mas um lutador. Temos que tentar achar os pais ou algum parente. Sei que nunca é confortável fazer isso, pois quando adotamos queremos seguir dali por diante não olhar para trás, mas é necessário se quiser salvar seu filho.
No orfanato Raimundo, quase todos os casos eram assim.: os pais sentem remorso em abandonar o filho no auge da doença, então esperam ele melhorar aparentemente e o abandonam. Isso para ser aceito. O médico que visita as crianças uma vez ao mês, abe a boca de um por um e nada mais. Como se todas as doenças do mundo pudessem ser vistas pela garganta.
_Ele fica aqui, internado. Decretou o médico solidário.
Uma avó cautelosa e uma mãe apreensiva não dircordaram.

_Pois não!
_Viemos pra falar sobre o menino!
_Entrem. Elizete reconheceu a Mãe de Mari.
Mari e a mãe iniciaram ali uma conversa nada agradável com Elizete. Não descobriram muito além daquilo que a coordenadora havia dito no momento da adoção. O menino precisava de doadores e não havia doadores.
_Meu filho não! Dizia Mari. _Meu filho de novo não! Essa frase era conhecida.

Uma ligação do hospital. Mari e a mãe precisavam iniciar uma campanha para encontrar um doador. Todos os amigos e os poucos parentes foram avisados. Nenhum doador. Nada no banco de doadores. O sofrimento das duas mulheres comoveu quase todos os funcionários e até pacientes do hospital. Principalmente pela história que já havia chegado aos corredores. Esta seria a segunda perda daquela mãe. Uma história mais triste que a outra.

Mari segurava a mão pequenina e ossuda de Francisco. Ela sentia o coraçãozinho dele batendo lentamente. Lembrava de seu outro filho. Castigo? Sina? Carma? Mari não encontrava uma resposta, só perguntas, infinitas. Até o sofrimento leva a uma comodidade difícil de explicar, assim como a causa dele. Responder negativamente a um simples: “Olá, como vai!!”, torna-se um hábito imperceptível. Mas só para quem responde, nunca para quem pergunta. Até porque não vai existir uma segunda indagação nesse diálogo. Ele pára por ali. São consideradas pessoas “negativas” e todos os conselhos mandam se afastar delas. Mari estava nessa fase. Até aquele momento.
_Dona Mari, por favor!
Chamava Doutor Orfeu, médico de Francisco. Usando uma gravata visivelmente apertada, que ele afrouxava enquanto falava com ela, que se levantou para evitar que o médico se estrangula-se na própria gravata que tentava frouxar.
_Achamos um doador!
Mari sentou-se novamente.
_Quem é esse anjo de Deus? Engasgado ele respondeu.
_A...a senhora!
_Mas o senhor disse que....Ele interompeu Mari abruptamente.
_Não sei como lhe dizer isso de forma que não pareça surpresa, até pra mim, mas não tenho outro jeito de dizer....ele tem o seu sangue, ele é seu filho!
Depois de três anos, aponta uma gota de lágrima em cada olho de Mari!

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2 comentários:

Edna Klein disse...

Será que eu te achei? rsrsrs E ai tudo certo? Lembra de mim? Ednaaaaaaa Unisul Criciuma Se vir este recadinho me add no msn ednaklein@hotmail.com

Bj

Alexandre disse...

Parece que alguém não atualiza esse blog faz tempo...
Mas deixo um recado de qualquer forma: obrigado pela companhia esse domingo, e parabéns pelo trabalho. (mais por esse aqui que pelo outro: na tela é correto, no 'papel' é lindo)
Um grande abraço,
Alexandre Roit