quarta-feira, 23 de abril de 2008

Fioravante

Quando dona Fioravante recebeu a notícia da herança que seu tio-avô havia deixado para ela, quase teve um enfarte (Digo quase porque nem Fioravante era tão tola em ter um piripaque nessa hora).
- Assine aqui por favor!, disse o moço, portador da boa nova, já na sala de estar, sem muita conversa.
- Ah sim, claro!! disse empolgada Fioravante, sem saber ao certo o que estava acontecendo, mas disposta a encarar a aventura de poder ser rica. Sequer sabia, quem era esse tal de tio-avô, mas era rico! No papel, apenas a confirmação de que ela era ela mesma e que havia sido encontrada! Imediatamente ela correu para o quarto na tentava trêmula de ligar para o marido que estava trabalhando e lhe dizer algumas coisas que desde o baile da escola estavam engasgadas.
- Escute Gastão! estou indo embora porque não agüento mais você, seus roncos a noite toda e principalmente seu mau hálito de boca de rancho! Agora sou uma mulher independente e livre para procurar um homem que me ame e que eu ame também! Ah! Bonito e rico. Fui!
Desligou o telefone. Voltou para a sala com apenas duas malas prontas. O moço que veio dar a notícia vestia um terno cinza escuro, era meio magro, cerca de um metro e oitenta, cabelos negros, curtos mas visivelmente encaracolados. Um mistério só! Logo orientou Dona Fioravante sobre como iria receber a grana, os imóveis e tudo mais. Sem muitas explicações detalhadas, pois tudo era segredo, por medida de segurança, que ela obviamente entendia.
- Prometi ao seu tio-avô que eu a encontraria. Fui o único a me empenhar em procurá-la, quando todos pensavam que jamais conseguiria! Serei exaltado! Ele conseguiu, todos dirão!!!
- Claro que conseguiu!
Cotinuava ela!
Os dois seguiram caminho até a cidade onde o tio-avô morava. Um hora, uma manhã, um dia inteiro! Não importa, a única coisa que Fioravante sabia é que de uma hora para outra ficara rica e logo logo colocaria as mãos engorduradas naquela ‘bufunfa’ gorda, mais gorda que ela. No meio do caminho, Fioravante já imaginava o primeiro investimento.
- Uma plástica nos culotes, uma lipo na barriga, uma esticada no rosto e o resto, valha-me Deus, é conseqüência!!!
No carro, o jovem rapaz, que até então estava quieto, começou a fazer perguntas.
- A senhora é casada há muito tempo?
- 15 anos!
- Quantos filhos a senhora tem?
- Nenhum
! Realmente Gastão não podia ter filhos e a situação do casal já de meia idade não era muito boa..
- Seu tio avô gostava muito da senhora...começou a falar mais a vontade o rapaz.
- É, eu também gostava muito dele!, dizia Fioravante, sem saber quem era o rapaz muito menos o tio avô dela.
Curiosidade era o que não faltava na cabeça da ex-dona de casa e quase rica. Mas ela não poderia perguntar nada, afinal tinha que mostrar total conhecimento sobre a família e quanto menos interesse na herança melhor. Fioravante até ensaiou uma súbita tristesa para a hora do enfrentamento! Tristesa pela morte do tio-avô. Tentou chorar.
- Mas aí era demais! Pensou ela!!
Quase no meio do caminho, sem saber ao certo onde estava, o jovem perguntou.
- Preciso parar o carro para ir ao banheiro, a senhora se importa?
- claro que não, pode ir meu rapaz!

O jovem desceu e foi até uma lojinha, ao lado de um posto de combustíveis, do outro lado da estrada. Demorou mais de quinze minutos. Fioravante aproveitou para vasculhar no porta luvas do carro na tentativa de encontrar alguma pista sobre algo que pudesse ser o início de algum assunto, ou uma informação sobre a família.... saber ao menos o nome de seu tio-avô, já que o jovem era puro mistério. Não encontrou!!
Fioravante ouve os freios longos de um carro e para acompanhar, um estrondo!! Olha para o lado e vê apenas um risco longo de sangue bem no meio a pista....um terno cinza!! Mas tudo era um vermelho só e uma certeza: nunca mais Fioravante veria herança alguma!!!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Clarice e Clarisse

Mesmo com o bumbum muito grande, Clarice tinha um corpinho bonito, não era tão elagante assim chamava a atenção.
Já Clarisse, era fininha que dava dó. De lado ou de frente não tinha diferença. Parecia uma vareta. Os dentes eram ralinhos e amarelinhos, os cabelos uma palha seca de cor castanha fosca.
Clarice, por outro lado, era vigorosa, unhas sempre bem lixadas e pintadas de vermelho ou rosa escuro! Os cabelos eram escorridos, não naturalmente é claro, pois sempre antes de sair de casa, Clarice apoiava-se na cama, jogava os cabelos para frente, cobria o comprimento com uma toalha úmida e passava o ferro de roupas. Ficava lisinho que era uma beleza!
Já Clarisse não tinha jeito. Os cabelos faziam tanto volume que nem ferro a vapor dava jeito naquela juba! Clarisse não pintava as unhas porque tinha alergia do esmalte e como seus lábios eram muito finos, também não usava batom, sempre ficava nos dentes!Já Clarice sim... vermelho encarnado...brilho transparente...dependia da roupa.
Certo dia a cidade de Carcajú amanheceu com uma faixa bem grande no meio da avenida principal. "Grande concurso de beleza no próximo dia 10 vai escolher a garota Carcajú. Interessadas comparecer na loja da Creusa Modas para sessão de fotos". Foi uma correria looooouca!!!
Dezenas de meninas estavam lá no dia seguinte, usando a roupa da missa de domingo! O fotógrafo da cidade nunca havia trabalhado tanto no mesmo. Ele viu mulheres feias, bonitas, magras, altas, baixas, gordas, enfim, uma infinidade de estilos, mas nenhum se comparava ao de Clarice. Clarisse também estava lá!. Uma equipe da cidade grande estava no comando. Clarice era definitivamente a mais linda, toda produzida! Clarisse também, sua mãe insistiu "filha, você é capaz, vai sim, vou rezar por você.". Não havia pré seleção. O grande dia chegou. Todas que se inscreveram estavam lá, inclusive Clarice e Clarisse. Começou o desfile. Uma , duas, dez, vinte e cinco, quarenta e três e a última, quarenta e quatro, Clarisse, sob sons finos e compridos de estranhesa e murmúrios. Clarice é claro sob palmas. Hora do resultado. Antes da cortina de seda amassada, usada na quermesse, subir, a parte de trás do palco despenca. Vinte e quatro garotas estavam em cima no momento do acidente e caem, entre elas Clarice, mas o público não poderia ficar sabendo, senão acabaria o grande evento da cidade e seria um caos. Antes da metade das meninas que sobrou entrar no palco para o resultado final, um dos organizadores, correndo com passos curtos, entra no meio da confusão e pergunta baixinho:_"Pelo amor de Deus, quem é Clarice? E Clarisse respondeu:_Sou eu. _Ainda bem, pelo menos a vencedora ficou inteira!!!

Olha o Badanha!

Daí Badanha !?
Badanha sempre foi conhecido como Badanha. Alguns dizem que nem mesmo ele lembrava do nome, mas era muito conhecido na cidade!
Homem franzino, cabelos oleosos e com muita caspa. Os dentes de Badanha eram branquinhos como espuma, pelo menos os que restavam na boca.
_Badanha, minha máquina de lavar roupas quebrou, você pode consertar? E lá ia o Badanha. Realmente todos conheciam aquele homem.
Mas algumas pessoas não gostavam de Badanha. Não eram inimigos de longa data ou até mesmo mortais, mas realmente não havia simpatia por parte da oposição. Alguns diziam que Badanha usava da falsa ingenuidade para entrar na casa da mulherada enquanto os maridos trabalhavam._Querido, o chuveiro queimou! _porque me incomoda com isso, chama o Badanha!!!
E lá ia o Badanha.
Abismaldo era uma daquelas pessoas que não gostava de Badanha, o sucesso do franzino incomodava o cabeleireiro. _Aquele Badanha é um nojento, ainda acabo desmascarando ele!. Certo dia Abismaldo estava cortando os poucos cabelos de uma senhora muito educada e ela gentilmente perguntou:_Seu Abismaldo, porque o senhor não gosta do Badanha? e o cabeleireiro logo começou a discursar os motivos, dos mais variados, todos sem fundamentos, segundo a distinta senhora, que o interrompeu:_Ah, mas eu gosto, não sei o que seria dessa cidade sem ele!
Abismaldo começou a ficar irritado. Até que decidiu:_Está na hora de mudar de cidade, clientela nova, gente diferente e longe do nojento do Badanha!
E lá se foi seu Abismaldo, ninguém sabe se por ciúmes, revolta ou orgulho, mas foi.
Ele viajou muito, levando os poucos pertences que tinha entulhado em quase trinta anos de caminhada por esse mundo a fora. Depois de viajar muitos dias, sem saber ao certo onde estava, ele resolveu ficar. Logo Abismaldo foi procurar uma sala para alugar e instalar sua barbearia._Ah, clientes novos!
Procurou em um mercadinho e falou para a dona: _Por favor, procuro, por indicação, uma senhora que aluga salas , me disseram que fica por aqui!? _ Ah sim, fica ali na esquina, dobrando à esquerda, é dona Graça, a mãe do Badanha!!!