Quando dona Fioravante recebeu a notícia da herança que seu tio-avô havia deixado para ela, quase teve um enfarte (Digo quase porque nem Fioravante era tão tola em ter um piripaque nessa hora).
- Assine aqui por favor!, disse o moço, portador da boa nova, já na sala de estar, sem muita conversa.
- Ah sim, claro!! disse empolgada Fioravante, sem saber ao certo o que estava acontecendo, mas disposta a encarar a aventura de poder ser rica. Sequer sabia, quem era esse tal de tio-avô, mas era rico! No papel, apenas a confirmação de que ela era ela mesma e que havia sido encontrada! Imediatamente ela correu para o quarto na tentava trêmula de ligar para o marido que estava trabalhando e lhe dizer algumas coisas que desde o baile da escola estavam engasgadas.
- Escute Gastão! estou indo embora porque não agüento mais você, seus roncos a noite toda e principalmente seu mau hálito de boca de rancho! Agora sou uma mulher independente e livre para procurar um homem que me ame e que eu ame também! Ah! Bonito e rico. Fui!
Desligou o telefone. Voltou para a sala com apenas duas malas prontas. O moço que veio dar a notícia vestia um terno cinza escuro, era meio magro, cerca de um metro e oitenta, cabelos negros, curtos mas visivelmente encaracolados. Um mistério só! Logo orientou Dona Fioravante sobre como iria receber a grana, os imóveis e tudo mais. Sem muitas explicações detalhadas, pois tudo era segredo, por medida de segurança, que ela obviamente entendia.
- Prometi ao seu tio-avô que eu a encontraria. Fui o único a me empenhar em procurá-la, quando todos pensavam que jamais conseguiria! Serei exaltado! Ele conseguiu, todos dirão!!!
- Claro que conseguiu! Cotinuava ela!
Os dois seguiram caminho até a cidade onde o tio-avô morava. Um hora, uma manhã, um dia inteiro! Não importa, a única coisa que Fioravante sabia é que de uma hora para outra ficara rica e logo logo colocaria as mãos engorduradas naquela ‘bufunfa’ gorda, mais gorda que ela. No meio do caminho, Fioravante já imaginava o primeiro investimento.
- Uma plástica nos culotes, uma lipo na barriga, uma esticada no rosto e o resto, valha-me Deus, é conseqüência!!!
No carro, o jovem rapaz, que até então estava quieto, começou a fazer perguntas.
- A senhora é casada há muito tempo?
- 15 anos!
- Quantos filhos a senhora tem?
- Nenhum! Realmente Gastão não podia ter filhos e a situação do casal já de meia idade não era muito boa..
- Seu tio avô gostava muito da senhora...começou a falar mais a vontade o rapaz.
- É, eu também gostava muito dele!, dizia Fioravante, sem saber quem era o rapaz muito menos o tio avô dela.
Curiosidade era o que não faltava na cabeça da ex-dona de casa e quase rica. Mas ela não poderia perguntar nada, afinal tinha que mostrar total conhecimento sobre a família e quanto menos interesse na herança melhor. Fioravante até ensaiou uma súbita tristesa para a hora do enfrentamento! Tristesa pela morte do tio-avô. Tentou chorar.
- Mas aí era demais! Pensou ela!!
Quase no meio do caminho, sem saber ao certo onde estava, o jovem perguntou.
- Preciso parar o carro para ir ao banheiro, a senhora se importa?
- claro que não, pode ir meu rapaz!
O jovem desceu e foi até uma lojinha, ao lado de um posto de combustíveis, do outro lado da estrada. Demorou mais de quinze minutos. Fioravante aproveitou para vasculhar no porta luvas do carro na tentativa de encontrar alguma pista sobre algo que pudesse ser o início de algum assunto, ou uma informação sobre a família.... saber ao menos o nome de seu tio-avô, já que o jovem era puro mistério. Não encontrou!!
Fioravante ouve os freios longos de um carro e para acompanhar, um estrondo!! Olha para o lado e vê apenas um risco longo de sangue bem no meio a pista....um terno cinza!! Mas tudo era um vermelho só e uma certeza: nunca mais Fioravante veria herança alguma!!!
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